Por: Karina Pinheiro
A canoa desliza sobre o rio, guiada pelas mãos firmes das mulheres que carregam saberes milenares e sonhos. Este é o IGARA KUYÃ BUESARA ITA, a canoa das mulheres que ensinam. Nascido do encontro entre os povos Baré, Tukano, Baniwa e Tariano, o grupo é uma força viva que rema contra as correntezas das inúmeras tentativas de apagamento através da colonização, reafirmando a identidade sociolinguística e cultural de suas comunidades.
Com raízes profundas nas tecnologias ancestrais e os olhos voltados para o amanhã, elas construíram um espaço de resguardo das ciências de seus povos: a “Casa de Memória Ancestral Digital de Kamanaus”. Uma ação que busca a partir do território digital preservar os os rios, as florestas e a língua Indígena, pilares do sustento material e espiritual de suas gentes. A iniciativa foi uma das apoiadas na 2ª Chamada do Podáali.

Foto: Karina Pinheiro/ Podáali
“O projeto tem como objetivo criar memórias e fortalecer a nossa história. Nós ouvimos os mais velhos que ouviram as histórias dos pais e avós deles e hoje passam o que aprenderam da vida aos mais novos. É uma forma de registrar algo que nunca foi escrito e por muito tempo esquecido”, disse Cristina Oliveira, responsável pelo projeto.
A digitalização de registros orais, o fortalecimento das línguas originárias e o registro das tecnologias do roçado, da pesca e da cura são apenas algumas das ações previstas. Tudo é pensado com base no tempo e no ritmo da comunidade, respeitando os ciclos da natureza e os modos próprios de ensino-aprendizagem, onde escutar é tão importante quanto dizer, e onde o silêncio também ensina.
Localizada na Ilha de Kamanaus, a apenas cinco minutos de rabeta do Porto de São Gabriel da Cachoeira e a 852 quilômetros de Manaus (AM), a comunidade Duraka Kapuã recebeu, no dia 3 de julho, a cerimônia de encerramento das atividades da Casa de Memória Ancestral Digital, um momento simbólico de retorno ao que foi construído coletivamente ao longo do projeto. A programação incluiu danças tradicionais, cânticos, a exibição de três curtas-metragens produzidos pelas comunidades e um dabacuri coletivo, marcando a partilha dos saberes com alegria e pertencimento. Representando o Fundo Podáali, a diretora-secretária Cláudia Soares Baré integrou a programação e compôs o júri responsável pela premiação dos vídeos das comunidades participantes: Duraka Kapuã (Ilha de Kamanaus), Areial do povo Baniwa e Camanaus do povo Baré.

Alunos do Ensino Médio apresentaram o ritual milenar dabacuri. Foto: Karina Pinheiro/Podáali
Durante seu discurso, Cláudia reforçou o caráter coletivo e duradouro da iniciativa: “Esse projeto é de todos, ele vai ficar aqui (na comunidade) para seus filhos, os valores que estão aqui, que vão dar continuidade ao trabalho, para as crianças que irão entender o projeto, trazer as memórias, ter como importante histórias que são contadas pelos avós, avôs, professores, pelos mais velhos.” Em cada curta, emergiram elementos fundamentais dos territórios: a arte das cestarias, os símbolos de fertilidade esculpidos em pedra, as conversas entre os mais velhos. Ao transformar experiências ancestrais em memória digital, o projeto não apenas preserva saberes, mas fortalece vínculos intergeracionais e reafirma que, mesmo diante das ameaças climáticas e territoriais, a resistência dos povos indígenas segue viva.

Diretora-secretária do Podáali a direita, ao lado de Cristina Oliveira, responsável pelo projeto. Foto: Karina Pinheiro/Podáali
A Casa também pretende ser um instrumento contra o isolamento e a perda de referências culturais entre as juventudes indígenas. Ao transformar o conhecimento ancestral em memória digital que pode ser compartilhado, reaprendido e celebrado. O projeto estimula o orgulho identitário e a continuidade dos modos de vida tradicionais como caminhos viáveis e necessários para o presente e o futuro.
Mais do que uma resposta, a Casa de Memória é uma afirmação: os povos indígenas não são apenas guardiões do passado, mas soluções para o futuro do planeta. E é a partir de suas próprias epistemologias, tecnologias e cosmologias que seguem resistindo, ensinando e recriando os mundos que habitam.