A homologação da Terra Indígena Kaxuyana – Tunayana, anunciada pelo Governo do Brasil durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), com publicação dos decretos no Diário Oficial da União em 18 de novembro de 2025, marcando um momento histórico para os povos indígenas que há anos esperavam por este anúncio.
A TI Kaxuyana Tunayana está nos municípios de Faro e Oriximiná (PA) e Nhamundá (AM), com aproximadamente 2,182 milhões de hectares destinados aos povos; Hixkaryana, Wai-wai, Kaxuyana, Kahyana, Tunayana, Txikyana, Katwena, Xerew, Xowyana, Mawayana, Tiriyó, Okomoyana, Karahawyana, Yaskuriyana, Farukwoto, Kararayana, Prowyana, Akuriyó, Wayana e Apalai e Isolados.
O território está localizado na região dos rios Cachorro e Trombetas, em uma área onde o acesso depende da combinação de diferentes meios e do conhecimento local. A chegada começa fora do território indígena, com longos trechos aéreos, segue por estradas de terra irregulares, avança pelos rios em embarcações pequenas e, em determinados pontos, exige caminhar pela mata. O percurso muda conforme o período do ano, o nível das águas e as condições climáticas, impondo desvios, pausas e adaptações constantes.

A celebração da homologação do território que ocorreu na aldeia Santidade, nos dias 10 e 11 de fevereiro. Foto: Acervo Podáali
Chegar ao território, contudo, é parte do processo e das dificuldades enfrentadas diariamente pelos povos que vivem ali. O diretor financeiro do Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira, Sandro Baré, acompanhou a celebração da homologação do território, que ocorreu na aldeia Santidade, nos dias 10 e 11 de fevereiro.
O percurso até a aldeia passa por um deslocamento que demonstra na prática a realidade dos territórios indígenas. São viagens longas, que misturam avião, estrada, rio e caminhada. Isso faz parte do cotidiano de quem vive ali.
Ao descrever o trajeto, Sandro Baré destacou que os desafios não estão apenas na distância, mas nas condições do percurso. Estradas estreitas, trechos escorregadios, rios com pedras expostas em períodos de seca, necessidade de empurrar embarcações e caminhar por áreas de mata fazem parte da rotina de quem precisa chegar ou sair do território. “Essas dificuldades ajudam a entender por que estar no território é tão importante. É ali que a gente compreende como as comunidades vivem, circulam e se organizam”, afirmou.
Segundo ele, a presença física permite perceber aspectos que não aparecem em relatórios ou documentos. “Quando você está no território, entende que a logística, o tempo e o esforço fazem parte da luta pela terra. Não é algo abstrato. É concreto, é vivido”, disse. Para Sandro Baré, esse entendimento é fundamental para qualquer atuação institucional voltada à garantia de direitos territoriais.
Antes do decreto, as comunidades já haviam iniciado práticas de autodemarcação, instalado marcos e organizado a ocupação coletiva das áreas tradicionais. “Esse processo já vinha sendo feito pelos próprios parentes, muito antes da homologação. O que o Estado faz agora é reconhecer algo que já estava no chão, na prática”, destacou Sandro Baré. A celebração da homologação reuniu diferentes povos da região, que chegaram ao território enfrentando os mesmos caminhos e desafios.
O encontro foi organizado a partir da lógica local, respeitando o tempo das chegadas e a circulação entre aldeias. Rituais, falas públicas e momentos de escuta foram realizados em espaços coletivos, reforçando a relação entre território, memória e organização social.

Foto: Vicente Buya / COIAB
Durante esses momentos, os mais velhos compartilharam histórias de deslocamentos forçados, separações e do retorno gradual às áreas tradicionais. Essas narrativas situaram a homologação dentro de uma linha histórica mais ampla, na qual o território aparece como elemento central de reconstrução coletiva. A palavra circulou entre gerações, conectando experiências passadas ao presente vivido.
Para Sandro Baré, estar no território também permite compreender as responsabilidades envolvidas no reconhecimento formal. “A homologação é importante, mas ela não resolve tudo sozinha. O território continua exigindo cuidado, organização e presença constante das comunidades”, afirmou. Segundo ele, a proteção territorial depende tanto do reconhecimento jurídico quanto da permanência cotidiana dos povos indígenas em suas terras.
A visão do Podáali nesse processo está diretamente ligada a essa compreensão. A atuação do fundo ocorre por meio do acompanhamento de iniciativas indígenas voltadas à garantia dos direitos territoriais, com presença no território e diálogo direto com as lideranças locais. “O Podáali não é só um fundo que repassa recursos. Ele acompanha, orienta e precisa entender a realidade de cada território para respeitar suas decisões”, disse Sandro.
O podáali através de uma parceria com a Coiab e apoiada pela Tenure Facility, esteve diretamente acompanhando o processo, pois a T.I. faz parte do Projeto Garantindo os Direitos Territoriais dos Povos Indígenas da Amazônia Brasileira, que visa apoiar o fortalecimento das organizações de cinco TIs da Amazônia brasileira para avançar na garantia dos seus direitos constitucionais. E a participação neste momento reforçou a importância da luta coletiva.
Para além do Podáali a comemoração também contou com a presença das organizações indígenas; Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), a Federação dos Povos Indígenas do Pará (Fepipa), a Articulação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas (Apiam), a Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas – Makira E’ta, e instituições governamentais, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), e de organizações parceiras, como o Iepé, a Fundação Moore, a Rainforest Foundation da Suécia e o Observatório dos Povos Isolados (OPI).



