Por Karina Pinheiro

A biodiversidade costuma aparecer nas negociações internacionais como uma agenda estratégica para o futuro do planeta. Está nos acordos multilaterais, nas metas de conservação e nos compromissos assumidos por governos para conter a perda acelerada de espécies e ecossistemas. Entretanto, longe das salas de negociação, a proteção da biodiversidade tem uma dimensão concreta e cotidiana: ela acontece nos territórios.

É ali, no manejo dos recursos naturais, na proteção das florestas, na circulação de sementes tradicionais, na relação com os rios e na transmissão de conhecimentos ancestrais, que a biodiversidade se mantém viva. No caso dos povos indígenas, essa proteção não se organiza como uma agenda paralela de conservação, mas como parte da própria vida coletiva, da cultura e da relação histórica com os territórios.

Celebrado neste dia 22 de maio, o Dia Internacional da Biodiversidade, traz a perspectiva que ajuda a reposicionar um debate que, muitas vezes, permanece distante das realidades locais. Mais de três décadas após a criação da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), durante a Eco-92, a discussão sobre conservação avançou no campo diplomático, mas ainda enfrenta desafios quando se trata de transformar reconhecimento político em apoio concreto para quem protege esses ecossistemas.

Foi essa perspectiva que o Podáali levou aos principais espaços internacionais de negociação sobre clima e biodiversidade nos últimos anos. Da COP16 da Biodiversidade, na Colômbia, à Conferência Global sobre Ação Climática Liderada Localmente, no Quênia, e mais recentemente nas articulações rumo à COP30, em Belém, o fundo tem defendido que a conservação da biodiversidade não pode ser separada do fortalecimento concreto dos territórios indígenas.

Durante a COP16, em 2024, onde o debate sobre mecanismos financeiros para biodiversidade voltou ao centro das negociações, a diretora-executiva do Podáali, Valéria Paye, apontou o descompasso entre o reconhecimento internacional do papel dos povos indígenas e o acesso real aos recursos destinados à proteção ambiental.

“Os povos indígenas protegem 80% da biodiversidade do planeta, mas recebem menos de 1% do financiamento destinado à mitigação e mudanças climáticas.”

A fala resume uma inquietação recorrente do movimento indígena, no qual, embora a governança ambiental global tem avançado no reconhecimento à centralidade dos povos indígenas para a conservação, os recursos continuam concentrados em estruturas distantes das realidades locais, com exigências burocráticas e modelos institucionais que frequentemente dificultam o acesso direto de quem atua no território.

Valéria Paye, diretora-executiva do Podáali em seu discurso durante a COP16. Foto: acervo Podáali

 

É nesse contexto que o Podáali se consolida não apenas como participante desse debate internacional, mas como uma resposta concreta construída pelo próprio movimento indígena amazônico. Criado a partir da demanda dos povos indígenas para que pudessem ter um mecanismo técnico mais acessível e alinhado às realidades dos territórios, o Fundo Indígena da Amazônia Brasileira foi estruturado a partir dos diálogos das lideranças da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) para financiar diretamente planos de vida, projetos e iniciativas voltadas ao fortalecimento dos modos de vida indígenas e seus territórios. Com governança liderada pelos próprios povos indígenas, o mecanismo busca apoiar aqueles que diariamente fazem a proteção dos territórios, da biodiversidade e das soluções construídas localmente.

Ao defender o modelo de mecanismo criado pelos povos indígenas, durante a COP16, Valéria Paye reforçou que o desafio não está apenas em ampliar o volume de recursos, mas em transformar a lógica que define como esses recursos chegam.

 

“A construção de um mecanismo para nós, povos indígenas, responde às nossas demandas e processos internos. O processo de criação do Podáali é resultado das nossas metodologias.”

No Quênia na Conferência Global do IFIP, o posicionamento apareceu na defesa de modelos de financiamento mais descentralizados e liderados localmente, reforçando a ideia de que biodiversidade, clima e proteção territorial não podem ser tratados apenas como temas de negociação diplomática, mas como agendas que exigem investimento direto em quem sustenta esses ecossistemas.

A pauta também ganhou força durante a COP30, em Belém, onde o Podáali levou ao centro das discussões climáticas a defesa por financiamento direto aos povos indígenas. Em meio aos debates sobre clima, florestas e mecanismos financeiros globais, o fundo argumentou que reconhecer o protagonismo indígena na proteção da biodiversidade não seria suficiente sem mudanças concretas na forma como os recursos chegam aos territórios.

Podáali durante a incidência na COP30 no lançamento da 3ª Chamada “Guardiãs da Amazônia”. Foto: Karina Pinheiro / Podáali

Durante a agenda internacional, Valéria destacou que os avanços nas negociações não acontecem de forma espontânea, mas como resultado de uma incidência política construída ao longo do tempo. “Os resultados que vemos não estão apenas ligados ao que entregamos aqui na COP. Nós não ‘entregamos’ sozinhos; nós conquistamos compromissos.”

A mensagem levada pelo Podáali a esses espaços internacionais parte de um princípio que orienta sua atuação: a biodiversidade continua viva porque existem povos, territórios e sistemas de conhecimento que a sustentam diariamente. Fortalecer essa proteção, para o fundo, passa por ampliar a autonomia indígena e garantir que os recursos cheguem diretamente a quem constrói soluções no chão dos territórios.

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