Em uma viagem que durou cerca de 20 horas, a representação do Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira deixou a Amazônia e chegou, no dia 20 de junho, a Londres para participar de mais uma edição da Semana de Ação Climática de Londres (London Climate Action Week – LCAW), realizada entre os dias 21 e 28 de junho.

O clima, porém, não era o esperado. O calor era intenso, lembrando o de muitas cidades amazônicas. Mas Londres não deveria estar assim. A onda de calor que atingia a cidade era mais um reflexo da crise climática, cujos impactos já afetam o continente europeu. 

Foi nesse cenário que o Podáali cumpriu sua agenda internacional, ecoando a voz dos povos indígenas da Amazônia. Em cada reunião, a mensagem foi clara: sem financiamento direto, os recursos dificilmente chegarão de forma efetiva a quem, há milhares de anos, apresenta soluções concretas para o enfrentamento à crise climática: os povos indígenas. 

Um dos principais temas que o Fundo indígena junto a Coiab levaram foi a operacionalização do financiamento climático por meio da criação de uma janela específica para povos indígenas nos fundos climáticos, do reconhecimento dos mecanismos financeiros indígenas e do respeito às estruturas próprias de governança. Redução de barreiras administrativas e técnicas que dificultam o acesso aos recursos, garantir salvaguardas para a proteção dos direitos, territórios e culturas indígenas.  

Foi com essa mensagem que a Coiab e o Podáali participaram no dia 23 de junho do painel “Mulheres Indígenas na Linha de Frente: Lideranças do Território, Justiça Climática e Financiamento Direto”, promovido pela ANMIGA – Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade. 

 

Registro do Painel “Mulheres Indígenas na Linha de Frente: Lideranças do Território, Justiça Climática e Financiamento Direto” Foto: Keila Guajajara

Na mesa participou representando as duas instituições, a assessora internacional da COIAB e conselheira orientadora do Podáali, Alana Manchineri, que durante o debate, apresentou a trajetória da COIAB e ressaltou o papel fundamental das mulheres indígenas na construção e fortalecimento da organização. Também destacou o Podáali como uma conquista do movimento indígena amazônico, demonstrando que os povos indígenas possuem capacidade técnica, política e institucional para gerir recursos de forma eficiente e garantir que os investimentos cheguem diretamente aos territórios.

O painel contou ainda com a participação de Jaqueline Aranduha, coordenadora de Promoção dos Direitos das Mulheres e Meninas Indígenas da ANMIGA, e teve mediação de Stephanie Daher, do King’s College London.

Financiamento direto para superar barreiras históricas e coloniais 

Seguindo a agenda na cidade Britânica, no dia 25 de junho, o Podáali e Coiab participaram do evento “Das Promessas à Proteção: operacionalizando o financiamento adequado às necessidades dos Povos Indígenas e das Comunidades Locais”, promovido pela Rainforest Foundation Norway e a The Royal Foundation.

Diretor – secretário do Podáali, Mário Nicácio e Coordenadora tesoureira da Coiab, Dineva Kayabi, no painel. Foto: Ariene Susui

O encontro reuniu doadores, governos, organizações indígenas e organizações da sociedade civil para discutir como tornar o financiamento internacional mais eficaz no fortalecimento dos direitos territoriais e da governança dos Povos Indígenas e das Comunidades Locais.

Representado a Coiab no painel esteve a coordenadora tesoureira, Dineva Kayabi e pelo Podáali o diretor – secretário, Mário Nicácio que ressaltaram a importância do apoio aos povos indígenas têm que ocorrer de forma direta respeitando as formas próprias de governança e organização.

Reunião de Organizações Indígenas e Comunitárias sobre o Tropical Forest Forever Facility (TFFF)

Em um debate sobre novos mecanismo de financiamento, o Podáali participou  no dia 26 de junho da Reunião de Organizações Indígenas e Comunitárias sobre o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), iniciativa que reuniu organizações indígenas, fundos territoriais, representantes de comunidades locais, governos e parceiros internacionais para discutir a construção do mecanismo de financiamento.

Lideranças presentes na reunião sobre o TFFF. Foto: Alana Manchineri

O encontro teve como objetivo reunir contribuições sobre o processo de seleção e os termos de referência do futuro Conselho Consultivo dos Povos Indígenas e Comunidades Locais do TFFF, além de debater e definir estratégias de articulação e comunicação entre organizações indígenas, comunidades locais e governos em torno da implementação do mecanismo.

A programação contou com atualizações sobre os avanços do TFFF desde a COP30, debates entre representantes indígenas e a Junta Diretiva Interina do mecanismo, discussões sobre a participação efetiva dos Povos Indígenas e Comunidades Locais na governança do fundo e reflexões sobre instrumentos que garantam o acesso direto aos recursos por organizações e fundos territoriais.

Participação nos debates sobre a Plataforma Shandia 

Após longos dias em diálogos, o Podáali esteve entre os dias 24 e 27 de junho, participando da programação do Fórum Shandia 2026, espaço internacional que reuniu Povos Indígenas e Comunidades Locais, fundos territoriais, organizações filantrópicas, doadores, governos e parceiros estratégicos para fortalecer o financiamento territorial liderado pelos próprios povos e comunidades.

Abrindo a programação, no dia 24 de junho, o Podáali participou do evento de lançamento do Relatório Shandia 2025 e do Guia de Boas Práticas de Gênero para Investimentos Territoriais. O encontro apresentou os principais resultados, aprendizados e desafios identificados pelos fundos que integram a Plataforma Shandia na implementação de mecanismos de financiamento territorial liderados por Povos Indígenas e Comunidades Locais.

Diretor – Secretário, Mário Nicácio, no Lançamento do Relatório Shandia 2025

As discussões também destacaram recomendações para a construção de sistemas de financiamento mais inclusivos, capazes de ampliar a participação e a liderança das mulheres, fortalecer a governança territorial, promover a autodeterminação dos povos e potencializar o impacto dos investimentos diretos nos territórios. O evento ainda promoveu o intercâmbio entre fundos territoriais, movimentos indígenas, doadores e parceiros estratégicos, reforçando o financiamento direto como instrumento para a conservação da biodiversidade, a justiça climática e o desenvolvimento sustentável.

No dia 27 de junho, o Podáali participou da Comunidade de Aprendizagem Shandia, encontro voltado ao compartilhamento de experiências entre fundos territoriais liderados por Povos Indígenas e Comunidades Locais. A atividade reuniu representantes de diferentes regiões para fortalecer a colaboração entre os fundos e discutir oportunidades de financiamento direto para os territórios.

Entre os principais temas debatidos estiveram as perspectivas de acesso a recursos do GEF-8 (Fundo para o Meio Ambiente Mundial), do Fundo Verde para o Clima (GCF) e de outros mecanismos internacionais voltados ao financiamento climático e à conservação da biodiversidade. O encontro também proporcionou um espaço de diálogo sobre desafios comuns, boas práticas e estratégias para ampliar o protagonismo dos povos indígenas na gestão e implementação de recursos destinados à proteção dos territórios.

Participação do Podáali na Comunidade de Aprendizagem Shandia. Foto: Alana Manchineri

Ao longo de toda a programação, uma mensagem esteve presente em cada debate, reunião e painel: enfrentar a crise climática exige reconhecer que os povos indígenas não sejam apenas reconhecidos por seu papel crucial no enfrentamento da crise climática, mas também que tenham acesso aos recursos dos fundos globais voltados ao meio ambiente.

Em um momento em que a Amazônia se aproxima de um ponto de não retorno, ampliar o financiamento direto, fortalecer os mecanismos financeiros indígenas e garantir a participação efetiva dos povos indígenas nos espaços de decisão tornou-se uma agenda urgente para a manutenção da biodiversidade e o equilíbrio climático do planeta, destacando que a Resposta vem dos territórios, a Resposta somos Nós!

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